Os quintais de minha vida, escrever é uma forma de terapia do prazer

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Os quintais de minha vida, escrever é uma forma de terapia do prazer

OS QUINTAIS DE NOSSOS AVÓS – Lembranças da infância, da adolescência e da vida adulta

Engraçado como escolho os temas sobre os quais escrevo. A partir de textos e livros que leio, aparecem algumas frases ou idéias que me chamam mais atenção e aí penso: “Bem que poderia colocar minha opinião sobre isto.” E anoto. E o tema se “perde”, pois não viabilizo o desejo na hora. Aí vem outro autor que me remete ao mesmo assunto e aí paro. E escrevo.

Para mim escrever é uma forma de terapia do prazer. Angela Garcia

Este conto (feito com muitos contos dentro) foi despertado em texto escrito por ADÉLIA PRADO – “A melhor coisa do mundo é o quintal da casa de minha avó!” Adélia Prado é, para mim, um modelo de pessoa. Poetisa e escritora ímpar! Ela escreveu sobre suas lembranças!

Porque não escrever sobre as minhas?
O registro de minhas historinhas dos MEUS QUINTAIS trouxe para perto de mim muitas alegrias, pois me faz reencantar com as coisas simples da vida. E a valorizar o presente e o futuro… Assim também devem ser os SEUS QUINTAIS… Basta parar para lembrar e escrever as suas histórias!

“… embora não possa mudar seu passado, você pode alterar a forma de entendê-lo e seguir em frente sob a luz dessa nova compreensão”.
Kevin Leman, autor do livro O Que as Lembranças de Infância Revelam Sobre Você (Ed. Mundo Cristão).

Guardo no coração as infâncias de Rubem Alves, Fernando Sabino, Manoel de Barros, Lya Luft, Érico Veríssimo, José Saramago, Pablo Neruda , e outras. A lista é grande.
Escolhi frases de apenas dois deles, para ilustrar o texto neste momento (depois virão outras citações sobre infância):

“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande.” – Manoel de Barros

“A infância é o sol sobre o qual andaremos toda a nossa vida.” – Lya Luft

Organizei “OS QUINTAIS DE MINHA VIDA” da seguinte forma:

Inicialmente, comecei com os quintais da minha infância, da minha adolescência e vida madura.

Quando adulta, subdividi em três períodos: Enquanto filha, enquanto mãe e enquanto avó.

Daí serem tantos os meus quintais! Muito importante mesmo falar de todos, como forma de ressaltar para mim mesma e para todos a importância do registro das histórias, dos valores de família e dos exemplos que constituem bases de referência da construção da vida de qualquer ser humano.

Quintais da infância e da adolescência

As histórias da infância fazem parte da gente. Não podemos negar isso. E devem estar sempre à mão para serem lembradas. Ora eu registro memórias havidas apenas por mim, ora histórias vividas também pelos filhos.

Tudo isso para que meus netos possam conhecer e saber valorizar o que somos e o que temos para dar… Estou certa que tudo isso vai reverberar ao longo das existências deles.

Nasci em uma casa antiga, com um quintal ENORME! Lá tinha mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras e galinheiro. É uma oficina de marcenaria de meu pai que “descansava” da medicina, relembrando ensinamentos de meus avós.

Lá morei até os cinco anos! Este quintal me foi descrito por irmã mais velha.

Minha memória mais remota foi aos seis anos. Do quintal da casa de uma avó. Lembro-me muito bem do último aniversário de Vovó Quilita, lá em Córrego Danta, terra de meu pai, em que roubei muitos suspiros (aqueles doces docinhos, de clara de neve, branquinhos e quebradiços…).

Eu, enquanto criança, me lembro do Morro do Maxixe, em que nossa Rural Willis sempre tinha dificuldades para subir, mesmo com tração nas quatro rodas e, às vezes, “atolava”. Tínhamos que descer (os treze irmãos e mamãe) para Papai empurrar o carro, com alguma ajuda, é claro… enquanto isso, íamos catar gabirobas para passar o tempo, no Sítio do Valentim…

Eu, enquanto adolescente, lembro-me de chupar muitas mangas, mas muitas mesmo, lá na Fazenda do Brumado… Gostava também da rede ali estendida, em dois galhos grossos… Só achava ruim o chiqueiro que ficava perto…

A infância é tempo de muita liberdade e de muitas descobertas… é tempo de alegria e espontaneidade. Assim devia ser para todos, em todas as classes sociais, pois a meninice continua a existir e é a base de tudo…

“A infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembrança. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos”.
Franz Hellens

Quintais da Vida Adulta

Mas vamos considerar agora os quintais da vida adulta, que se confundem com os quintais das infâncias dos filhos.

Começando pelo quintal da Vovó Deli: Fazenda do Brumado, cachoeira, jabuticabas, mangas e melancias, borboletinhas amarelas… E das balas de açúcar feitas na hora (ela não era tão boa cozinheira, por assim dizer…). Mas gostava de contar histórias. Sim, como gostava… principalmente histórias de sua infância…

O João, meu filho, de tanto que gosta da “Fazenda Brumado”, a confundia, aos três anos, mais ou menos, com o Parque Municipal, que ficava pertinho de nossa casa da rua Sergipe… pois lá tinha cavalinhos para andar e ele associava os cavalinhos do parque aos cavalinhos da fazenda de verdade…

Vamos agora ao Quintal da Vovó Joaninha (sogra maravilhosa, grande amiga, modelo e confidente).
Como não me lembrar das refeições com todos no quintal, na mesa redonda, com toalha de algodão toda estampada de flores?

Como não me lembrar do varal de roupas cheirosas a balançar no quintal, do piso de “caquinhos” (revestimento com retalhos de cerâmica quebradinho, justapostas), da piscininha de plástico onde os dobermans pulavam a pedido de meus filhos (acreditem se quiserem…).

Como não nos lembrar do pão de queijo feito por ela, sempre quentinho e saboroso (que eu nunca soube fazer), do frango a molho pardo (que também eu nunca soube fazer), da carne cozida com legumes (que insistia em “derreter” no céu da boca), do filé mignon picadinho e flambado (os meus filhos só queriam o feito por ela…), da batata frita crocante, da banana caturra com pedaços de rapadura que minha sogra insistia de sempre ter para me agradar… Ah… e os brigadeiros? E o brigadeirão? Meu Deus do Céu! Delícia demais… Ainda hoje Mariana, a caçulinha, gosta de fazer esta receita da Vovó Joaninha, para os aniversários de família…

As receitas de família “… são guardadas com muito afeto e a passagem delas através das gerações é notada, algumas de mãe para filha, com risco de perder-se nesta última geração, enquanto outra foi passada de avó para neto, suprimindo uma geração.”

E o quintal de nossa casa de campo no Morro do Chapéu?
Este também deixou muitas saudades…
Sempre tinha os amiguinhos e priminhos que nos acompanhavam… Sempre cheia a casa, com muita zoeira e alegria… O que falar da casa de bonecas construída ao lado do espaço da churrasqueira?

Com dois pavimentos! Como esquecer do estar, do mezanino e da janela com escorregador que levava para tanque de areia do lado de fora? E da cozinha adjacente à churrasqueira dos “grandes”, com direito a fogãozinho de lenha e tudo mais? Tinha ainda o “rego” artificial. Foi construído inclinado, com o objetivo de se soltar um barquinho de papel lá de cima para que ele, “navegando” por uma lâmina d’água, chegasse em um laguinho com peixinhos dourados. Este era o projeto…

Bom mesmo era o pé de ameixas amarelas… e o pé de manga ubá que nunca deu… E o “campo de futebol” à frente da casa? Nele fazia-se de tudo: do piquenique às festas juninas, com direito a fogueira de verdade, que aquecia as noites frias do Condomínio… Juliana e Ana Carolina aproveitaram muito o quintal do Morro. Claro que sempre acompanhadas dos outros dois irmãos!

Infância é isso, gente: é fundamento, base da vida, terreno sob o qual erguemos nossa existência. Que bom ter-se histórias para contar…

Eu, enquanto mãe e enquanto avó, não tenho limites para estar sempre junto dos filhos e dos netos! Claro que quando dá… Queria mesmo estar sempre com eles, mas é preciso “distância” para sentir-se falta e saudades… Gostaria muito que eles tenham tudo aquilo que tive: muito amor e muitas lembranças boas de minha mãe, de minha avó e de nossas meninices! Vivências de roça, de chupar jabuticabas no pé, de fazer “guerra de mamonas”, de “voar” no balanço de pneu de caminhão…

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E você? Vamos fazer um bom exercício/terapia/brincadeira? Só sentar e escrever. Mesmo achando que não tem nada de bom para contar, você vai ver que ao começar a enumerar, uma lembrança vem atrás de outra e de outra é-se outra. Apostando?

As positivas nos levam adiante. As não tão positivas nos levam a refletir e a descobrir razões dos feitos de hoje. As negativas nos ensinam o que não deixar acontecer novamente. É um simples exercício, uma simples parada no momento presente… Entre no túnel do tempo e faça uma viagem para dentro de si.

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Desde dezembro de 2015, em publicação no Facebook, eu já pensava neste tema!

“Eu quero aprender tudo de novo! Colocar mais tintas em minha vida! Viver muitas emoções! RECUPERAR SENTIDOS! Todo dia é um novo dia!”

A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo.

Agora eu, enquanto bisa que pretendo ser um dia, sonho em fazer o “para casa” com a bisneta e içar uma pipa com o bisneto, ou vice-versa…

Preciso muito me preparar para tal…

Forte Abraço

Angela Garcia

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